Argo Dive com Domingos Lopes

 

Para o primeiro "Argo Dive - Conversas com propósito" convidámos Domingos Lopes, um talento sem fronteiras que cresceu na África do Sul, formou-se em Portugal e chegou em 2012 ao Brasil onde assumiu a função de Customer Development and Sales Director da Unilever Foodsolutions Brazil.

Alguém que vemos como um bom exemplo de Liderança adaptada aos desafios atuais do mercado, e que aceitou partilhar connosco a sua perspetiva sobre o mundo.

 

1. Durante a tua infância viveste na África do Sul. O que é que isso te ensinou sobre a humanidade? Que bases te deu em relação ao mundo e às pessoas?

Eu nasci em Joanesburgo. Foi uma experiência fenomenal, pois é um país onde nem tudo está desenvolvido, em que houve o apartheid e as dificuldades inerentes ao mesmo. Mas nós vivíamos numa comunidade de portugueses muito próxima. Era quase uma comunidade fechada em que criávamos amizades e relações com todas as pessoas. E como estávamos num país que, para os meus pais não era o deles, aquilo que mais aprendi e que mais gostava era o sentido de pertença. Algo que me fez sentir um choque muito grande quando vim para Portugal.... Lá eu era capaz de passar consecutivamente, 52 semanas do ano, todos os domingos, com as mesmas pessoas, a almoçar. Era sempre muito divertido, sempre a aproveitar bem a vida. Não sei se era por se tratar da comunidade portuguesa, ou se era pelo país. Mas sim, isso foi uma coisa que me marcou para o resto da vida, principalmente por não ter sentido o mesmo quando cheguei a Portugal.

 

2. Sentes que esse sentido de comunidade e pertença se está a perder, sobretudo nas grandes cidades?

Sim, sem dúvida. A minha família, lá, ainda era considerável e estávamos sempre juntos. Cá a família é maior, mas se nos juntamos uma vez por ano, é muito. É, por isso, uma grande diferença.

 

3. E agora, nos últimos seis anos estiveste no Brasil…como explicas que tantas empresas portuguesas tenham falhado a aposta de entrada neste mercado? Ou seja, para além da conjuntura económica, tendemos a sobrevalorizar as diferenças culturais que existem?

Eu acho que esses são os principais problemas. Todos pensam isso, que vão para um país irmão, que as coisas são parecidas, mas não é verdade. Seja a nível individual, seja a nível profissional, a postura que se deve ter é uma postura de “vou explorar, porque é muito diferente daquilo que eu conheço” e, porque realmente a cultura portuguesa é muito diferente da cultura brasileira. Olhando para a história, para o início, o Brasil é um país extraordinário, não só em termos de beleza, mas também das pessoas que lá estão, são sempre muito amigáveis, estão sempre muito felizes. É um país onde tendo um pouco de capacidade de adaptação, quem vá de Portugal ou de outro país qualquer da Europa, vai conseguir ser feliz lá também.

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Mas há aspetos a que as pessoas têm efetivamente que se adaptar. O processo burocrático é complexo, não é tão simples como os processos portugueses – por incrível que pareça – tratar de coisas deste género no Brasil exige uma grande dose de paciência. Temos que saber que as coisas não vão funcionar logo à primeira e não podemos ficar chateados com isso; temos que saber que é assim e as coisas funcionam dessa forma. E eu acho que muitas empresas, quando foram para lá, não estavam preparadas para essas diferenças. Pensavam que ia ser uma entrada fácil e não é. Há mesmo muita burocracia, seja por questões de impostos, seja por outros assuntos tão simples como: em Portugal eu consigo entregar um produto no Porto amanhã. No Brasil, para entregar um produto em Manaus, estando em São Paulo, é possível demorar 25 dias. São aspetos que as empresas têm que ter em conta. Essa é uma parte da conversa; a outra parte da conversa: o Brasil é gigante, é o dobro da Europa, exagerando um pouco, tem 200 milhões de habitantes. Eu costumo dizer que o Brasil não é um país, o Brasil são, no mínimo, cinco países.

Com a função que desempenhava, tive a oportunidade de conhecer 21 das 27 capitais do Brasil. E em cada cidade que visitava, dava para perceber perfeitamente que existe uma base, que é da cultura brasileira, que está lá, mas há muita coisa que é diferente. Seja a alimentação, seja a forma como as pessoas passam o tempo, a forma como as pessoas falam ou como te tratam. Vais para o Norte, és muito mais acarinhado, és recebido de uma forma mais simples, com mais abraços…. Vais para o sul, para Porto Alegre, por exemplo, é outra realidade. Parece muito mais alemão, do que talvez italiano, e para uma empresa ou jovem que vai para o Brasil, isto faz com que seja necessária uma adaptação, uma vez que a cultura é diferente e as realidades em cada cidade também são diferentes.

 

4. Lembras-te de algum exemplo de hábitos de consumo que reflita essas diferenças? Outro dia lia sobre uma empresa de detergentes que tentou lançar um produto na Rússia com aroma fresco de lavanda, e perceberam, depois de um estudo, que para os Russos a lavanda não é um cheiro bom. O que eles associavam ao cheiro de fresco era de rua, humidade... Porque tinham o hábito de deixar a roupa a secar na rua e, portanto, tiveram que mudar o aroma para adaptar o hábito de consumo. Lembras-te se no Brasil havia algum exemplo que demonstrasse estas diferenças? De como temos que adaptar o nosso produto em função daquilo que são os hábitos de consumo?

Sim, a coisa mais importante que temos que fazer é entender o mercado em que estamos. No caso do Brasil, como já referi, não se trata apenas de um país, mas sim de uma cultura diferente em cada um dos estados. Por exemplo, o Recife - que é uma das cidades mais bonitas do Brasil e muito conhecida pelo turismo - é uma cidade muito quente o ano todo (30 graus ou mais) e é talvez a cidade com maior consumo de whisky per capita, que é algo quente, e que por norma não associamos a um clima assim, mas é o hábito. As pessoas são capazes de beber whisky logo de manhã, não faço ideia porquê. Mas a empresa que criou essa estratégia lá atrás, certamente que entendeu que havia uma oportunidade para isso.

Então, na minha visão temos o Brasil dividido em dois. Tudo o que é de Goiânia para baixo está um pouco mais desenvolvido, a situação económica um pouco melhor, tudo o que é de Goiânia para cima, que é mais ou menos a meio do país, está um pouco menos desenvolvido, e ainda tem muito para fazer a nível de infraestruturas, de escolas, etc. Só por esta divisão já temos que entender que até podemos ter o mesmo produto - uma água, por exemplo, que pode ter uma qualidade diferente, com sabores e aromas – e, no sul vai funcionar, mas no norte já não. Esta análise só é possível quando vamos lá e vivemos o mercado. Este é um conselho que eu dou a todas as pessoas, não é sentado no escritório, com ar condicionado que vamos entender as diferenças do mercado, e elas existem. Somos capazes de encontrar pessoas da classe B e da classe A na mesma rua e temos que ter soluções para cada uma delas, mas isso é um trabalho muito profundo que ainda tem que ser feito.

 

5. Muitas das pessoas que fizeram carreiras internacionais referem que isso lhes deu outra perspetiva sobre Portugal. Sentes o mesmo? O que mudou na tua relação com o país e na forma do país depois destes anos a viver fora?

Portugal é fantástico. Começando por aí. Mas dás mais ou menos valor, depois dessa experiência internacional. Há coisas que antes não via como fatores a valorizar e que hoje em dia valorizo. Mudou a perspetiva.

Quando vim para cá tinha 16 anos. Saí daqui quando tinha 34. Depois de quase seis anos no Brasil, agora voltando para Portugal, percebo que tinha muitas coisas que considerava como um dado adquirido. A sensação de segurança, por exemplo, que se sente aqui em Portugal é algo que, no passado não dava valor, pois era um dado adquirido. Depois de ter estado seis anos no Brasil, onde nunca nada me aconteceu, mas que é um país perigoso, o facto de eu aqui poder sair à noite às 2/3 da manhã, a falar ao telemóvel, dá-me um sentido de segurança que no Brasil não tenho.

No que diz respeito às pessoas, como o Brasil é um país muito grande, conheces muita gente e ficas com a sensação que não têm uma base certa, isto é, as pessoas ficam um ou dois anos em São Paulo, um ou dois anos no Rio de Janeiro, um ou dois anos em Goiâna, por questões de trabalho, ou em busca de novas oportunidades, ou porque a empresa transfere a pessoa. Isso é normal. O que acontece aí? Os brasileiros criam um grupo de amigos gigantesco, têm amigos por todo o lado, mas quando analisas a profundidade dessas amizades, não é tanta como tens aqui em Portugal – que é outro dado adquirido que eu tinha e que agora, voltando, me faz pensar e agir de outra forma.

Além disso, a escala no Brasil é muito diferente, claro. Estamos a falar de 200 milhões de consumidores. Aqui estamos a falar de 10 milhões. Verdade que Portugal está muito bem situado na Europa, mas são muito menos e a esse nível sim, vou ter um pouco de dificuldade em adaptar-me. Lá temos que fazer coisas boas, mas a probabilidade de ter sucesso é maior porque tens 200 milhões de pessoas, aqui é muito menor.

 

6. E falando um pouco de negócio, do mercado, daquilo que está a acontecer em termos de tendências e evolução. Há uns meses uma empresa americana com um modelo de subscrição mensal de lâminas de barbear foi comprada pela Unilever, por muitos milhões de euros. De que forma é que estes novos modelos de negócio têm impactado nas grandes multinacionais de grande consumo?

Cada empresa vai ter a sua forma de ver as coisas. Aquilo que eu acredito é que estamos num mundo que é muito diferente do que era no passado. O tempo de mudança, hoje em dia, é muito mais rápido. Isso só acontece porque o mundo está muito mais conectado e faz com que as soluções que existem na África do Sul, e que há dez anos era impossível serem conhecidas aqui em Portugal, hoje, passados 5 minutos já se sabe que existem e que podem ser implementadas de imediato. Esta conectividade tem que mudar a forma de agir das empresas grandes, médias ou pequenas, nacionais ou internacionais, porque se não mudar não sobrevivem... Ou sobrevive ou morre, não vai ter meio termo.

As empresas têm que se adaptar a estas mudanças que estão a acontecer no mundo. As pessoas têm que ser muito mais ágeis, muito mais simples, menos complexas e temos que saber que, no passado as soluções eram mais coletivas e que neste momento são muito mais individualistas: “eu quero isto, naquele dia, naquele horário, naquele lugar, desta cor, daquela forma”. E isso faz com que as empresas, principalmente as mais pequenas, tenham que passar por algumas dificuldades, pois normalmente fazemos coisas para grande escala e agora temos que fazer mais coisas de nicho. Essa é a nova realidade. Quando olho para as pessoas mais jovens é isso que sinto: “eu não sei bem o que quero, mas quando decidir, quero aquilo amanhã, rápido” e nem todas as empresas estão preparadas para isso ainda.

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7. Tiveste muitos anos na mesma empresa. De que forma é que a cultura da empresa te influenciou enquanto pessoa? Nós acreditamos e falamos muito sobre este aspeto de que a cultura das empresas tem um impacto grande na forma como nos sentimos no dia-a-dia. No teu caso o que é que assimilaste da cultura multinacional, onde achas que te influenciou mais na pessoa que és hoje?

Em tanta coisa…. Foram 18 anos na mesma empresa. Se sou o profissional que sou hoje é por tudo o que lá passei. Considero-me uma pessoa com muita sorte, não só em termos de processos empresariais, mas por todas as pessoas que conheci, permitiu-me ser uma pessoa muito mais desenvolvida, mais profissional, feliz… E tudo isso vem da cultura que eu vivi na empresa.

Para mim o recurso mais importante são as pessoas, porque são as pessoas que fazem as coisas acontecer e, por isso, têm de ser bem tratadas. E sempre fui muito bem tratado.

 

Como a nossa divisão do negócio era uma divisão mais pequena, tínhamos uma relação muito familiar e não deixava de conhecer quase todas as pessoas da Food Solutions a nível global. E com esse sentido de família aprendi muito dentro do mundo corporativo – não sei se isto existe em todas as empresas, mas lá existe e influenciou muito a forma como penso e como sou hoje em dia. É difícil falar só de uma ou duas coisas.

 

8. Pegando nesse exemplo, qual é para ti a cultura ideal – se é que isso é possível – para uma empresa nos tempos modernos? Quais são, para ti, os pilares fundamentais para uma empresa conseguir motivar e reter os seus colaboradores?

Primeiro podia dizer que a empresa ideal tem que ser aquela que tem a capacidade de ter pessoas muito diversas. Diversidade em todos os prismas, idade, género, etc. e, claro, a empresa tem que ter a capacidade de gerir essa diversidade.

Segundo, em termos de cultura, as empresas hoje em dia têm que ser extremamente ágeis para se adaptarem ao mundo. As regras são importantes, mas não podem ser criadas para que as pessoas não tomem decisões e tenham medo de assumir riscos. Acredito mesmo que as pessoas têm que ter espaço e liberdade para agir e fazer aquilo que acham ser correto, porque certamente será bom para a empresa. E se as pessoas são bloqueadas por regras e processos, e não permitem que isso aconteça, não é bom. É preciso ter agilidade, flexibilidade e a capacidade de gerir a diversidade.

Além disso, algo que eu critico muito, por não acontecer em muitos lugares, diz respeito à celebração. Temos que celebrar muito mais as vitórias, ao invés de estarmos à procura dos problemas e das coisas que não foram conquistadas. Temos sempre a tendência natural de olhar para aquilo que deu errado e esquecemo-nos de olhar para as coisas boas. Quando olhamos só para os erros, de certeza que vamos encontrar coisas erradas em tudo o que vamos ver. Por isso temos que ter a capacidade de ver as coisas positivas. E, quando alguém errar, em vez de “estarmos a dar na cabeça” provavelmente temos que dizer: “Well done, tentaste, não deu certo, tenta outra coisa”. E eu acho que isto é algo que ainda não está na cultura.

 

9. Temos assistido também a uma preocupação maior da parte das empresas com coisas como workplace design, worklife balance, para permitir às pessoas um maior equilíbrio e flexibilidade. Onde achas que ainda há maior margem para evolução e melhorias?

Correndo o risco de ser mal interpretado, acho que a maioria das empresas ainda não está preparada para aquilo que eu penso – de uma forma bem modesta – que é a nova realidade do nosso mundo. Aquela coisa do passado de ter que ir de fato, de ter que ter uma determinada postura dentro da empresa, de ter que chegar em determinado horário… Na minha opinião já não faz sentido. As pessoas são mais individualistas, querem as coisas à sua maneira e tenho a certeza que vão contribuir muito para a sociedade.

Se passo a maior parte do meu tempo a trabalhar, tenho que me sentir bem onde trabalho. Por isso as empresas têm que obrigatoriamente dar espaço e liberdade para que isso aconteça, e, a meu ver – e é aqui que acho que vou ser mal-entendido – a liderança mais sénior das empresas, não mudou, pelo menos do que eu conheço, e tem muito trabalho a fazer.

Ouvimos dizer que “tu fazes parte da empresa X e quem tem que mudar o que acontece da empresa, és tu”. Eu concordo, cada um de nós faz parte da cultura da empresa e temos a capacidade de a fazer mudar, mas tem de ser em todos os níveis. Não é um mero vendedor, estagiário ou manager que vai conseguir fazer a mudança sozinho. Pode dar o seu contributo, mas tem que passar por todos, em cima e de cima para baixo. Isso é algo que me deixa frustrado muito porque dizem que as pessoas precisam de um sítio bonito para trabalhar, homeoffice, horários mais flexíveis… As pessoas falam nisso, mas depois fazem o contrário.

 

10. Continuam com pequenos exemplos a reprimir essa liberdade e individualidade…

Sim, e isso é muito frustrante… Os benefícios que temos em trabalhar num lugar que nos deixa felizes são enormes. Eu tenho essa sorte. Tanto posso trabalhar em casa, como no escritório. Eu tenho essa possibilidade. E isso é algo que eu sinto que é muito diferente. No Brasil pelo menos nas empresas que eu conheço, isso já está avançado. Aqui em Portugal não sei se estamos com o mesmo mindset.

 

11. Vemos cada vez mais pessoas pelo mundo a valorizarem regimes de trabalho mais flexíveis, como freelancers, sem vínculo contratual. Os modelos de organização que conhecemos até à data estão em risco? Esta vontade individual de trabalhar por projetos, com diferentes empresas vai obrigar a alterações na forma como vemos o mercado hoje em dia? Já acontece no Brasil?

Sim, isso já acontece. E eu acredito que a tendência seja essa. Porque os modelos do passado foram muito bons, ajudaram-nos a chegar onde estamos hoje, mas quando olhamos mais para a frente, esses modelos, se não sofrerem grandes alterações, não funcionarão mais. Por isso, essa questão dos regimes mais flexíveis, de trabalhar como empresário em nome individual, será certamente a tendência do futuro.

Também acho que as empresas têm que criar ferramentas para que essas pessoas que querem tornar-se empresários em nome individual tenham vontade e interesse de trabalhar nas empresas multinacionais. Porque é uma grande mais valia. Imagina uma pessoa que abre e constrói um negócio maravilhoso, porque tem uma visão empreendedora fantástica, quebra barreiras, faz muito com pouco. Ter uma pessoa assim com esse background, esse conhecimento dentro de uma multinacional, vai ser obviamente muito bom, porque ela vai pôr em causa o status quo.  

Porque é que isso é importante? Por aquilo que já referi, o mundo está diferente, está muito mais rápido, os modelos que vimos no passado já não funcionam, nem servem para o futuro… Então temos que nos adaptar a essa nova realidade, temos que ter pessoas das novas gerações a entrar nas empresas grandes, para desafiarem a forma como as coisas têm sido feitas, porque tenho a certeza que as empresas vão ter muito a ganhar com isso.

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12. Trabalhaste muito com talento jovem, tens 3 filhos (10, 8 e 5 anos) que ainda estão longe da universidade, mas quando falas com esta geração mais nova, que tipo de experiências gostas de partilhar com eles? O que é que achas que, hoje em dia, um jovem que esteja a entrar no mercado de trabalho, deve ponderar?

O primeiro conselho que eu queria dar antes de falar de paixão, e que vejo mais como propósito, (e que eu sei que é muito difícil os jovens de hoje aceitarem de forma tranquila), é terem um pouco mais de paciência e aproveitarem muito mais o momento em que estão.

O que eu sinto – e posso estar completamente errado – tendo uma equipa de 110 pessoas, em que a média de idades é baixíssima, composta por vendedores e managers, é que eles chegam à equipa, à empresa, naquela localização e momento e só estão a pensar no próximo passo. E eu pergunto “não queres aproveitar o que estás a fazer agora? Não queres aprender e conhecer tudo?”. Parece que se quer dar logo o próximo passo. Se fizessem estas perguntas, seria uma conquista muito grande para eles.

E sobre esta questão da paixão e do propósito… Quando somos jovens podemos pensar “que seca, isto não serve para nada”, eu acho o contrário. A partir do momento em que a pessoa identifica o seu verdadeiro propósito, que se pode entender como paixão, as coisas ficam muito mais claras, para onde queremos ir profissional ou pessoalmente.

Tive a sorte de, nos últimos dois ou três anos, apesar de já ter 40, ter feito um trabalho profundo para tentar identificar exatamente o que é o meu propósito. E, pode não fazer sentido nenhum para as outras pessoas, mas para mim faz.

Basicamente quero dar aos outros, a crença de que o impossível é possível. Esse é o meu propósito de vida. E porque é que isso acontece? Por tudo aquilo que eu passei quando vim da África do Sul para Portugal… Isto é, quando cheguei em janeiro, a meio do 10º ano de escolaridade em que quase não falava português, não chumbei, porque na altura decorei tudo. Tornei possível!

Depois, queria ir para o Brasil porque queria ter uma experiência internacional e o pensamento foi o mesmo: vou fazer acontecer! Quando quis voltar para Portugal, pensei da mesma forma. Eu quero acreditar que as coisas são todas possíveis de fazer. E quero transmitir isso às pessoas que trabalham comigo, filhos e amigos… Esse é o meu propósito, a minha paixão.

Por isso, se és um jovem de 22, 23, 25 anos, tendo um pouco de paciência, fazendo um trabalho profundo para identificar o propósito, a partir daí, todas as escolhas que fizeres vão tornar-se muito mais fáceis.

Vejo muita gente a estudar para ser algo que não é bem o que quer. Por um lado é bom porque fica enriquecido com vários conhecimentos, mas não está a seguir um caminho lógico a longo prazo. Se fizer um trabalho antes, de identificar o propósito, talvez seja mais fácil. Mas isso deixa-me a pensar que não sei como estão as coisas hoje, na faculdade…

 

13. Achas que as próprias universidades têm que repensar a forma como estão a estruturar os cursos, para ajudar as pessoas a encontrar o seu propósito? O que achas que deve ser mudado a esse nível?

Para mim, o ensino em Portugal é bom. Não é perfeito, mas gosto muito. Tanto que aconselho qualquer pessoa de fora, a vir estudar para Portugal. Mas o problema que vejo é que o ensino também tem que se adaptar a esta nova realidade. Obviamente em termos tecnológicos está bem avançado, mas se calhar devia investir-se um pouco mais de tempo nessa questão do propósito. E investir mais nisso não quer dizer que é necessária uma disciplina ou o ano inteiro só a olhar para este tema… Porque uma pessoa tanto pode descobrir o seu propósito numa hora, como pode demorar anos.

No meu caso, esta mudança profissional que vou fazer agora, só acontece porque eu tenho a certeza que vai ao encontro do meu propósito, que eu vou conseguir estar num lugar que me vai permitir mostrar que algumas coisas aparentemente impossíveis são possíveis. Imagina sair da faculdade com um propósito tão claro como este! Não interessa a empresa onde vou trabalhar, mas sei o que quero fazer a longo prazo. Tudo vai encarrilhar-se…

Respondendo à tua pergunta, é muito importante essa questão da paixão/propósito. Diria mesmo que é essencial.

 

14. Para terminar…vivemos numa altura em que os negócios estão muito orientados para a precisão e racionalidade…analytics, machine learning…quase uma obsessão com aquilo que são dados do negócio. Achas que ainda há espaço para a intuição na liderança e no negócio? E tu enquanto líder, como convives com a intuição? Dás-lhe ouvidos ou também és obcecado com esta questão de ter que medir para gerir?

Na minha opinião a intuição é algo essencial e que tem que continuar a ter espaço dentro do nosso mundo agora e daqui a muitos anos.

No meu caso em particular, sempre fui uma pessoa extremamente intuitiva - follow my gut, feeling - tanto que além do meu propósito, aquilo que me caracteriza é que sou uma pessoa muito intuitiva, que faz as coisas acontecer de forma autêntica. Por isso, a questão da intuição para mim, é essencial. Mas também tenho a noção que tive a sorte, nos últimos anos em Portugal e no tempo que estive no Brasil, de aperfeiçoar um pouco esta questão da intuição, que considero essencial para as empresas terem sucesso e, para nós enquanto indivíduos.

Temos experiência de vida… O nosso gut feeling não vai estar assim tão errado, temos de confiar nele e muitas pessoas não confiam. Eu sou apologista de que as pessoas têm mesmo que confiar na intuição. Mas já que o mundo está a mudar e existe uma base de informação muito maior do que pensamos, o ideal e o mundo perfeito, é tentar conectar as duas coisas. Usar a informação que existe, que é muito valiosa, e associar a intuição, porque toda a informação que possamos ter, nunca vai dar a resposta 100% clara – é pelo menos nisso que eu acredito. A resposta não vai estar sempre certa, tem haver uma parte de intuição. Como é que ela se desenvolve, não sei, mas acredito que é um pilar essencial de um bom líder de uma empresa! Tenho a certeza absoluta que a maioria dos CEO’s, tomam metade das decisões com base na intuição, tem que ser…

 

15. Interessante, porque é um tema que estamos a explorar.... Sentimos que há quase um estereótipo de tudo o que é mais subjetivo… No mundo em que caminhamos, tanto para as ciências e analytics, é importante dar espaço a essa intuição, que não é mais do que a experiência acumulada que nos ajuda a tomar decisões…

Seja por experiência acumulada profissional ou pessoalmente, porque tudo o que aprendemos na vida vai ajudar-nos a desenvolver a nossa intuição. Os números dizem muita coisa, ajudam a cortar muito caminho, mas há coisas que os números nos dizem e que se apenas os seguirmos sem questionar, vai dar tudo errado. Por isso, os números até podem não estar errados, mas a execução sim. No entanto, quando olhamos para os mesmos dados e juntamos um pouco de intuição, o caminho vai ser provavelmente diferente…

Este é, de facto, um tema pelo qual sou muito apaixonado, porque no Brasil as pessoas estão formatadas para tomar decisões só com base nos números. E eu era 100% o oposto e hoje sou 50/50 porque me adaptei à realidade.

Esta conversa aconteceu no espaço JNCQUOI.