Perfis Júnior e a ansiedade de ingressar no mundo de trabalho

Perfis Júnior e a ansiedade de ingressar no mundo de trabalho

A entrada no mercado de trabalho é uma altura marcante na vida dos jovens adultos.  Num país onde o desemprego jovem e qualificado tem valores elevados, o investimento pessoal e monetário feito num curso superior, o medo de rejeição e de não fazer a escolha certa em termos do curso a seguir poderão tornar-se fontes de ansiedade, particularmente para quem procura a sua independência e autonomia, numa nova fase da sua vida.

Assim, muitos recém-formados procuram saber a “fórmula certa” para que a sua primeira decisão profissional seja a melhor possível. Não é incomum, por isso, pedir conselhos a amigos e conhecidos já ativos no mercado de trabalho; a profissionais em empresas que lhes suscitem interesse, ou que façam pesquisas e leituras de artigos com títulos comuns e redutores como “5 estratégias para garantir que é o candidato escolhido” ou “Como garantir que o emprego é seu”.

Embora seja muito importante procurar informação através de diferentes fontes, é igualmente relevante compreendê-la e integrá-la na sua atuação de forma a desenvolver e aprofundar competências reais, não se limitando apenas a replicar o que se ouviu / leu sem refletir sobre os temas e retirar a informação que faz sentido para cada indivíduo.

A criação de Network profissional ou a busca de feedback - conselhos frequentemente dados pelas fontes referidas anteriormente - não deve ser algo apenas superficial, pontual e instrumental, inerente à entrevista e com vista a conseguir uma oportunidade de trabalho. Deve ser, isso sim, um trabalho contínuo de aprendizagem, dentro e fora do contexto profissional de cada um.

Uma vez que no caso dos recém-licenciados não existe um sólido percurso profissional para explorar, a entrevista de perfis juniores, pelos recrutadores, tem uma menor incidência no percurso profissional, sendo maioritariamente orientada para as soft skills, motivação, percurso académico, atividades extracurriculares, estágios de verão, interesses pessoais ou experiência profissional durante os estudos. E, devido à falta de experiência neste tipo de situações, a preocupação da parte dos jovens, em dizer a “coisa certa” é comum, levando a que estes muitas vezes se refugiem em respostas standard e chavões que ouviram algures, e que consideram revelar a sua maturidade e preparação para a função a que se candidatam.

A título de exemplo, consideremos uma possível questão em entrevistas de emprego para funções entry-level, ou juniores, programas de trainees ou estágios profissionais: “O que retiras do teu semestre de voluntariado / da tua experiência de Erasmus?” Em maior ou menor grau, o “contacto com realidades diferentes / outras culturas” é um dado adquirido, de senso comum, que qualquer empregador ou recrutador sabe que o candidato experienciou. No entanto, uma reflexão acerca da experiência, ou a partilha de exemplos concretos sobre essas experiências transmite uma imagem de maior maturidade e autoconhecimento, por parte do entrevistado, acrescendo valor efetivo à resposta. “Foi difícil comunicar claramente com todos os meus colegas num trabalho de grupo”, “Foi interessante perceber que a forma socialmente aceite de cumprimentar as pessoas difere entre países”, “Foi desafiante viver sozinho pela primeira vez e perceber que, por exemplo, as compras do supermercado não aparecem feitas por magia – alguém tem de as fazer!”; estes são alguns exemplos de aprendizagens reais, que transmitem uma ideia concreta acerca do tipo de desafios que cada pessoa enfrentou, e que dão abertura a explorar a forma como foram solucionados.
 

Resumindo: em qualquer situação de procura de emprego, a autenticidade da pessoa é fulcral. A esta autenticidade está inerente a capacidade de fazer uma reflexão crítica prévia das competências ganhas nas várias experiências (bem-sucedidas ou não) do seu percurso pessoal e profissional, assim como uma aceitação de que cada pessoa tem pontos fortes e aspetos a desenvolver, passíveis de melhoria. Desta forma, o exercício de reflexão pessoal, a articulação das suas experiências com aprendizagens e conseguir comunicá-las clara, assertiva e sucintamente, em contexto de entrevista, é algo que contribui para um melhor resultado da mesma.

É ainda importante para os candidatos, juniores, mas não só, terem presente o facto de que, caso não sejam o candidato escolhido para determinada função, tal não significa que seja um fracasso pessoal, ou que o seu percurso seja menos válido. Qualquer candidato deverá considerar que há aspetos inerentes ao preenchimento de uma vaga de emprego, como o fit cultural com a empresa e com a chefia, timings e urgência, expectativas, (in)existência de oportunidades desafiantes e de crescimento dentro da empresa, que transcendem a sua performance ou prestação na entrevista.

Desta forma, a procura do primeiro emprego é também uma oportunidade de aumentar a sua maturidade, resiliência, aprender a gerir emoções, estabelecer contactos futuros e melhorar a sua rede profissional.

Nuno Paiva