Entre estar online e estar bem: os dois lados do trabalho híbrido

Durante muito tempo, aprendemos a separar o que sentimos do que fazemos no trabalho. Considerávamos que, dentro do escritório, deixávamos de ser pessoas com problemas, e passávamos a ser profissionais 100% focados em tarefas, resultados e objetivos. Mas, com o tempo, e especialmente com as mudanças dos últimos anos, ficou claro que essa separação é uma ilusão. O que vivemos fora do trabalho acompanha-nos para dentro dele, e vice-versa.
 
Hoje, com o trabalho híbrido cada vez mais comum, esta mistura entre a vida pessoal e profissional está mais presente do que nunca. Ganhámos flexibilidade, autonomia e mais tempo, tanto no trabalho como em casa. Para muita gente, isto permitiu conciliar melhor o dia a dia. Mas, com todos esses benefícios, surgiu também o desafio de aprender a estabelecer limites. Afinal, quando é que se desliga, quando o computador está logo ali na sala e as notificações nunca param? Quantas vezes já respondeste a um e-mail só porque "é rápido", mesmo fora do horário? Ou ficaste a pensar em algo do trabalho enquanto tentavas relaxar?
 
A verdade é que, apesar das vantagens, o trabalho híbrido trouxe com ele uma nova dificuldade: a linha que separa a vida pessoal da vida profissional. Quando o escritório é em casa, onde acaba um momento e começa o outro? Para muitas pessoas, esta flexibilidade acabou por criar uma sensação de que era necessário estar sempre disponível. E isso, a médio prazo, pesa.
Este peso aparece de várias maneiras: ansiedade, cansaço e a dificuldade em desligar. Não é raro ver pessoas a cumprir tarefas, responder a mensagens e participar em reuniões sem energia ou motivação, fazendo-o apenas porque sentem que “é preciso”. A isso chama-se presenteísmo: estar lá, mas não estar. Muitas vezes, é mais difícil perceber quando isso acontece a quem está a trabalhar de casa. No escritório, notamos se alguém está mais calado ou mais cansado. No trabalho remoto, uma câmara desligada pode ser apenas uma escolha, mas também pode ser um sinal de cansaço ou até mesmo de desmotivação.
 
No fundo, a questão é: estar online significa estar disponível? E estar disponível o tempo todo significa ser mais produtivo? A resposta é não. Descansar é essencial para o nosso bem-estar e também para conseguirmos ser produtivos. Pequenos hábitos, como definir uma hora para acabar o trabalho, desligar as notificações, fazer pausas e saber separar o trabalho da vida pessoal, podem fazer toda a diferença. Às vezes, basta uma pequena caminhada no final do dia para deixarmos o trabalho para trás e começarmos a aproveitar o resto do nosso dia.
 
E nem sempre é uma questão de falta de motivação. Muitas vezes, estamos simplesmente cansados. Continuamos a aparecer, a responder e a fazer o que temos para fazer, mas tudo parece exigir mais esforço. Demoramos mais, distraímo-nos com facilidade e já não temos a mesma energia ou vontade. Por outro lado, um ambiente saudável, onde existe apoio, abertura para falar sobre as dificuldades e respeito pelos limites, pode fazer toda a diferença. As iniciativas de bem-estar são importantes, mas tornam-se ainda mais valiosas quando fazem parte de uma cultura que incentiva o equilíbrio e respeita o tempo de cada pessoa. Criar expectativas claras, promover a confiança e valorizar o trabalho realizado, em vez da constante presença online, contribui para uma forma de trabalhar mais saudável e sustentável. O equilíbrio está, em permitir que cada um encontre o seu próprio ritmo, com autonomia, mas também com pertença e apoio. Nem toda a gente precisa do mesmo: há quem prefira ir ao escritório, há quem se sinta melhor em casa, há quem precise de contacto e colaboração, outros não tanto. O mais importante é saber adaptar, ouvir e criar um ambiente onde todos sintamos que fazemos parte de algo e que o nosso contributo é valorizado.
 
Criar um ambiente de trabalho saudável é uma responsabilidade partilhada. As empresas têm um papel importante na promoção do nosso bem-estar. Mas também é importante que cada um de nós se sinta à vontade para falar quando algo não está bem, e pedir ajuda. Comunicarmos os nossos limites. Quando existe uma abertura de ambos os lados, torna-se mais fácil encontrar soluções e construir um ambiente onde as pessoas se sintam ouvidas, respeitadas e apoiadas.
 
Talvez a questão não seja apenas perceber como podemos ser mais produtivos enquanto profissionais, mas também reconhecer aquilo de que precisamos para trabalhar melhor. Quando nos sentimos bem e motivados, torna-se muito mais fácil manter a criatividade, o envolvimento e a vontade de fazer um bom trabalho e entregar bons resultados. No fundo, cuidar das pessoas é também cuidar da forma como trabalhamos e dos resultados que construímos juntos. E tudo isto passa por encontrar um equilíbrio entre o que precisamos e aquilo que as organizações precisam de nós. Quando nos sentimos bem, motivados e valorizados, isso reflete-se naturalmente na forma como trabalhamos e como contribuímos para o crescimento da organização. No final, todos temos a ganhar com este equilíbrio.
 
No fim, não somos profissionais durante oito horas e pessoas nas outras dezasseis. Somos sempre a mesma pessoa. As nossas vidas pessoais e profissionais estão mais ligadas do que muitas vezes pensamos. O que vivemos fora do trabalho pode influenciar a forma como trabalhamos, e aquilo que acontece durante o dia de trabalho também pode acompanhar-nos para casa. Porque uma pessoa quando está bem pensa melhor. Quem pensa melhor decide melhor. Quem decide melhor trabalha melhor. No fundo, uma organização não se faz apenas de resultados, mas também das pessoas que contribuem para os alcançar.
 
E é aí que a saúde mental e a saúde profissional deixam de estar em lados opostos, porque uma mente saudável faz de nós profissionais saudáveis.
 
Porque o futuro do trabalho só faz sentido se crescermos juntos!

Por Mafalda Malvas

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